Nas atividades do profissional de saúde e segurança do trabalho existe uma função sempre presente e extremamente importante no bom desenvolvimento do seu trabalho: a ação de se comunicar com os colegas. Ela está presente quando ele produz um comunicado sobre riscos em determinada atividade, nos relatórios de investigação de acidentes, no parecer técnico ou nos planos de ação, nas formações e treinamentos que o profissional de segurança ministra, nas orientações de segurança dadas nas frentes de trabalho, ou seja, a todo momento esse profissional de segurança está se comunicando com algum colega, com as equipes, com a gerência, cobrando, informando, orientando, ensinando sobre segurança do trabalho.
Apesar dessa relevância, normalmente não há nas escolas uma preocupação em abordar o papel da comunicação no desenvolvimento da atividade de segurança. Como na maioria das vezes não aprendeu nos cursos de segurança, cada um tem que buscar esse conhecimento sozinho, às vezes num aprendizado prático, noutras vezes intuitivo, mas por conta própria certamente. E dependente da oferta desse tipo de formação na região onde vive e trabalha. Na área de segurança, esta é uma necessidade que ainda carece de uma formação mais especifica.
Vamos fazer aqui no blog da Elipsy uma série de postagens abordando esse tema. Esperamos conseguir ampliar seu conhecimento sobre o papel da comunicação para os profissionais de segurança do trabalho.
O que é comunicação?
Essa palavra vem do latim communicare e possui o significado de tornar comum, partilhar, participar de algo. O que fica claro aqui é que é preciso um entendimento comum entre as partes para que aconteça uma comunicação.

Como forma de demonstrar a importância do entendimento comum, vamos usar um exemplo bem diferente e bastante diverso. Vamos supor que você precisa passar as orientações de segurança para um novo trabalhador na sua empresa. Nesse exemplo o novo trabalhador é tailandês, um imigrante recém admitido no Brasil e que fala muito pouco o português. Vamos acrescentar outra complicação: você o está orientando na operação de uma retroescavadeira e ele opera uma a mais de dez anos. Podemos dizer que temos uma comunicação impossível nesse caso? Seria uma afirmativa verdadeira se você não conseguir construir pontos de entendimento comum com esse novo colega. Na verdade, será uma comunicação bastante difícil, e os riscos da atividade poderão ampliar bastante. É um exemplo radical mais serve demonstrar o que é entendimento comum.
Podemos dizer então que a comunicação humana existe quando as pessoas conseguem trocar de informações, ideias, sentimentos, impressões, imagens, etc. através de símbolos que sejam compreendidos de forma comum, como exemplo, a palavra, a escrita, os sinais, os gestos, os olhares, as roupas, etc. e também que ela pode acontecer de forma verbal (linguagem escrita e falada, sons e palavras) ou não-verbal (expressões faciais, corporais, fisiológicas, etc.).

O ato de se comunicar é tão comum para nós humanos que na maioria das vezes não percebemos como ele é complexo. Para facilitar o entendimento do mesmo, imaginamos um evento e o separamos de forma didática e esquemática em três aspectos relevantes a serem observados. São eles: os elementos da comunicação, as variáveis presentes no processo e algumas falhas possíveis quando nos comunicamos.
Elementos da Comunicação
Os elementos presentes num evento de comunicação (p.ex. num bate papo, numa consulta médica, numa reunião com a chefia, etc.), mas sabemos que eles ocorrem de forma multifacetada, ao mesmo tempo, em qualquer momento e em vários níveis, e até mesmo simultaneamente, e essa separação é apenas didática. São eles:
- O estímulo, que pode ser interno ou externo aos interlocutores.
- O ambiente, que é o espaço ou a situação onde acontece o evento.
- Um participante é o emissor, interlocutor, fonte (alterna no diálogo).
- A mensagem é o elo de ligação, com significado comum aos participantes;
- O canal é a maneira como ela acontece (verbal, não verbal, simbólica, etc.)
- Os meios são os instrumentos usados (fala, celular, e-mail, carta, etc.)
- Outro participante é o receptor, interlocutor, ouvinte (alterna no diálogo).
- Um novo estímulo, resposta emitida pelo receptor. E o proceso recomeça.

Variáveis presentes no processo de comunicação
Quando duas pessoas estão se comunicando, também estão presentes no processo algumas variáveis que vão influenciar o desenrolar do acontecimento. Listamos algumas delas abaixo:
- A dinâmica interna de cada pessoa (humor, raiva, calma, etc.).
- A interação e o contato físico-social, e também com o ambiente ao redor.
- A seleção dos elementos que serão compartilhados (fala, escritos, desenhos, etc.).
- A percepção de cada um, da realidade que os rodeia.
- A forma como decodificam o que os signos representam (fala, escritos, desenhos, etc.).
- Como interpretam o que cada um ouve e entende.
- A reação, que pode ir da aceitação até a rejeição.
- A resposta propriamente dita.
As falhas possíveis quando nos comunicamos
a) As originadas na personalidade:
- Auto suficiência e convicção de que tem sempre toda razão.
- Quando se congela a avaliação de uma pessoa, nada muda nela.
- Diferença entre aspectos subjetivos (personalidade interior) e objetivos (manifestação exterior);
- Tendências à complicar e se afastar do simples.
b) As devido à linguagem
- Confundir fatos e opiniões, um pode se transformar no outro.
- Confundir inferências com observações, dedução pelo raciocínio com observação atenta.
- Descuido com palavras abstratas, uma imprecisão que provoca desentendimento.
- Desencontros ao não se compartilhar o significado das palavras.
- Não discrimina e não reconhece variações ou diferenças.
- Polarização ao tratar contrários como se fossem contraditórios.
- Polissemia, com significados diferentes para mesma palavra.
- Barreira verbais com palavras e expressões que despertam antagonismos.
O profissional de saúde e segurança do trabalho e a comunicação
No ambiente de qualquer organização a comunicação é fundamental para a mesma atingir seus objetivos. Para os profissionais de saúde e segurança do trabalho conseguir se comunicar de forma eficaz é essencial, tanto para que consigam um bom relacionamento com os diferentes públicos ao qual se conectam no dia a dia da empresa, como para desenvolver bons processos de interação e integração com os colegas. Isso é fundamental no incremento das suas chances de sucesso nas atividades desenvolvidas pela segurança. Mas como vimos acima, não é fácil se comunicar. Existem numerosas condições que influenciam todo o processo.

Vamos usar outro exemplo: vimos que basta juntarmos uma dinâmica interna de um colega, está de péssimo humor, e um leve descuido seu ao usar palavras abstratas referentes a um comportamento desse colega, e teremos uma imprecisão que pode provocar um grande desentendimento e afetar significativamente seu trabalho de orientação. Você estava cobrando o uso de uma máscara com filtro para vapores, num processo de soldagem que exala fumos metálicos e disse que o colega é descuidado. Pronto, agora ele se recusa a usar a máscara todo o tempo e há uma cobrança para que o trabalho se conclua. E ele nem é o tailandês do nosso exemplo anterior.
Na postagem vamos continuar a falar de comunicação e segurança. Se você gostou curte o nosso texto. Se tem algum comentário, fique à vontade para se expressar abaixo. E assine nossa lista para receber os avisos quando publicarmos mais textos aqui no blog.
Quer saber mais? Separei algumas referências para leitura:
- FLEURY, Maria Tereza Leme (Org.). As pessoas a organização.São Paulo. Editora Gente, 2002.
- LLORY, Michell. Acidentes industriais: o custo do silêncio: operadores privados da palavra e executivos que não podem ser encontrados. Rio de Janeiro, RJ: Multimais Editorial,1999.
- PETEADO, J.R. Whitaker. A técnica da comunicação humana. São Paulo, Pioneira, 1977.